Monday, September 16, 2002

Como podem ver, há mais de um mês não entro numa cozinha. Me mudei com meus temperos para cá. Apareçam.

Wednesday, August 07, 2002

Antes de passar-lhes minha receita de hoje, gostaria de esclarecer que minhas receitas servem a homens e mulheres. Mesmo que eu me dirija ao público feminino, os meus amigos não devem se sentir excluídos, pois as receitas valem para todos. Certinho?


Les Pâtes Omô aux Truffes de Vaucluse


Xiii, por essa você não esperava. O descerebrado que você catou na saideira de sábado e arrastou para casa gostou e quer repetir a dose. Você deu mole na agenda e agora ele fica ligando todo dia pro seu celular, pro seu trabalho, pra casa da sua mãe e, pior, pro seu namorado. E agora? Não dá pra fugir do país, não é? Polícia nem pensar, advogado sai caro, e o escândalo? Fica fria que para esses momentos difíceis da vida nada melhor do que preparar um bom prato de Massa de Sabão em Pó com Trufas-negras de Creme de Leite. Outro exemplo típico da culinária francesa, este prato é simples e no nosso caso em questão deve ser servido acompanhado de um Châteauneuf branco, safra 1986, aberto desde então. Bom, o primeiro passo é convidar o seu amiguinho para um romântico jantar a dois. Ele vai ficar eufórico e por um tempo você vai se ver livre da baba dele no seu cangote. Feito isto, no dia D reúna os seguintes ingredientes: sal, 1kg de batata, 1 xícara de creme de leite, 130g de trufas-negras frescas sem lavar e, o toque de gênio, 1 caixa do sabão em pó de sua preferência. Primeiro cozinhe as batatas sem descascar. Quando estiverem pra lá de cozidas, recolha o langanho e prepare a massa como se fosse fazer nhoque, capisce?, só que em vez de farinha, polvilhe tudo com sabão em pó. Deixe o entulho descansar por duas horas e vá responder seus e-mails. Segundo passo: numa panela pequena, em fogo baixo, esquente o creme de leite até levantar fervura. Corte as trufas em pedaços grandes, junte ao creme e ferva tudo de novo. No terceiro e último passo você vai cozinhar a massa e depois misturá-la escorrida com as trufas e o creme. Voilà. Você mal consegue esperar, não é mesmo? Não se esqueça, sirva imediatamente antes que comece a fazer bolhas. A porção dá para 6 pessoas, mas ele merece tudinho, non è vero? Agora sorria e diga adeus aos seus problemas porque eles já acabaram. Depois me conte.

Sunday, August 04, 2002

Pommes à Calvin Klein


Inacreditável, não é? Contando ninguém acreditaria. Você precisou mudar de casa, mudar de bairro, e mesmo assim aquele ex- de seu parceiro não desgruda, tem de bater o ponto na sua casa para voduzar a sua relação. Pois, meu amigo e minha amiga, seus problemas acabaram. Tenho uma solução para este caso complicado: a Salada de Batatas com Vinagrete de Calvin Klein. Esta salada sempre me faz lembrar minha primeira viagem à França, quando tive a oportunidade de conhecer Madame Pomodore, especialista no segredo essencial das saladas de batata. Para ela a chave estava na variedade de sabores dos temperos. Ah oui oui oui, não me esqueço daqueles nossos piqueniques nos quintais da Provence onde ela me ensinou tanta coisa...a misturar bem a charlota...Hum, de volta ao Brasil, criei este maravilhoso prato que combina com nossas estações. Seguinte, cozinhe então as batatas no vapor, 20 minutos bastam. Prepare o vinagrete numa tigelinha: 1 xícara de azeite, 2 colheres de vinagre, 1/2 xícara de vinho branco, 1 xícara bem cheia do perfume CK1 e sal a gosto. As batatas prontas corte em rodelas, misture o vinagrete e mexa bem. Reserve durante 2 horas, para que as batatas absorvam bem o molho, e vá ouvir Jungle Jazz nas alturas. Dance, dance, dance. Na hora de servir, espalhe salsinha e cebolinha por cima da salada e, grand finale!, borrife mais uma dose de CK1.

Dá para 3 porções. Veja só a cara de satisfação da criatura, mal sabe o que está lhe aguardando. Lembre-se, noblesse oblige, os convidados primeiro.

Saturday, August 03, 2002

Musse de Chantilly com Dendê


Você acordou entediada, com dor de barriga e resolveu pegar leve na dieta. O chá de camomila com bolachas e ricota foi uma sábia decisão, mas o que reequilibrou mesmo suas energias foram as gargalhadas que deu com aquela panaca fazendo ioga na tv. Pronto, você está outra, já pode pensar na sobremesa para o almoço. Uma salada de frutas seria o ideal se você estivesse sozinha, mas já sei que vai ter visitas inesperadas. Foi pensando naquele carinha que sempre traz cds do Djavan para ouvir na sua casa, que sugiro a minha maravilhosa receita de musse de chantilly com dendê. Assim ó, pegue 2 pacotes de gelatina neutra em 1 litro de água e coloque em fogo brando. Deixe secar. Leve tudo ao processador depois, acrescente duas pinceladas de chantilly e 3 conchas transbordantes de azeite de dendê, o legítimo. Corrija com sal. Bata, bata, bata. Leve ao freezer e vá fazer as unhas. (........) Blim blom, as visitas inesperadas chegaram! Sirva frio com uma folhinha de hortelã. Agora é só esperar pelos elogios.

Wednesday, July 31, 2002

Não se iniba, deixe sua mensagem, faça propaganda do seu blog, diga o que achou deste interblog. Aproveite que estou de bom humor.

Tuesday, July 30, 2002

Eu linko para o Leite de Pato sem pedir nada em troca, nem um simples afago.

Sunday, July 28, 2002

Sobre as superstições


Recebo com bastante freqüência cartas e mensagens de meus correspondentes espalhados pelo mundo me pedindo, por incrível que pareça, que elabore uma lista de superstições (uma lista internacional?). Ora, meus queridos, confesso que isto seria uma missão impossível. Faltar-me-iam horas no relógio para dedicar-me a essa espécie de enciclopedismo esotérico. São milhões de superstições através dos tempos, desde a Babilônia, desde que o planeta Terra começou a ser trilhado por mãos e pés (e depois só pés) humanos. As superstições também se sucedem, substituindo umas às outras, segundo as características de cada época. Há uma superstição nova a cada dia, e sempre há uma superstição velha para um temente cansado. Acredito até que muitas superstições saem de "moda" e em seu lugar logo são colocadas outras mais "fashion". Além disso, há superstições pessoais, não há quem não tenha a sua própria, intransferível, e guardada a sete chaves. Para muitos, por exemplo, o número 12+1 é sinal de má sorte, já para outros o TREZE é sinal de bom augúrio.

Em minhas andanças pela Terra, conheci todo tipo de gente com todo tipo de superstição. Famílias poderosas e famílias humildes que evitavam 13 convidados à mesma mesa de refeição por temerem infortúnio. Gente que, ao espremer o limão na comida para temperá-la, cuidava atentamente para que os caroços não caíssem no prato, pois receavam a má sorte que trariam. Pessoas que não saíam de casa na hora do meio-dia para não atrair desgraça. Incontável o número de vezes que meus pés afundaram na farinha ao visitar dependências de inúmeras casas: farinha no chão traz fartura, assim me disseram. Assim como vinho derramado é alegria e sal derramado é agouro. (Meus pés felizmente não mergulharam neste último, caso contrário seriam os pés mais temperados do reino de Gilgamesh.) Conheci senhoras, de todas as crenças e diferentes níveis de instrução, de moral ou respeitabilidade duvidosas, das mais diversas etnias, que me disseram não fazer barulho com panelas ou frigideiras para não atrair a atenção do "demo". Conversei com jovens de todas as nacionalidades que me confidenciaram, constrangidas, fazer uso de "sortilégios" para arranjar marido. Acreditavam que se colocassem duas agulhas em uma tigela de água e elas se juntassem, isso significaria casamento próximo.

Os homens também, surpreendentemente, são afeitos a superstições. Em alguns casos, mais do que as mulheres. Certa vez, em uma de minhas caminhadas por Santiago, deparei-me com vários peregrinos se acotovelando e empurrando uns aos outros para ver quem conseguiria apanhar primeiro do chão uma velha e enferrujada ferradura (poderoso amuleto da sorte quando encontrado casualmente). Anos atrás, em visita a um mosteiro cristão no Reino Unido, onde participei de um longo debate teológico com representantes beneditinos, franciscanos, carmelitas, capuchinhos, jesuítas, maristas, trapistas, redentoristas, lazaristas, dominicanos e salesianos, retirei-me, exausta, após os debates, aos meus aposentos para um merecido descanso. O sono estava prestes a cobrir-me com seu manto quando ouço baterem à porta. Ao abri-la, deparei-me com um frei já bastante idoso segurando uma ânfora e um copo vazio que ele passou às minhas mãos, solícito, proferindo as seguintes palavras: "Não deve dormir com sede, Senhora, pois durante o sono a sua alma pode sair em busca de água e se perder no caminho." Apesar de eu saber que minha alma estava cansada demais para uma experiência fora-do-corpo àquela altura, sorri ternamente para o bom homem e agradeci por sua preocupação.

E assim é. A superstição não se explica, a superstição se compreende. Para quem sabe lê-la, ela é um sinal das relações entre sociedade, cultura e natureza. A superstição é uma manifestação da importãncia que se dá ao sagrado. As Pirâmedes do Egito, as Pirâmedes do México, o Taj Mahal, Macchu Picchu, o Muro das Lamentações, a Mesquita Sagrada, o Santuário de Lourdes são sagrados. Seriam superstições?


---------- Yimã, em "As Cartas de Yimã".

zzzzzzz